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Permito a transcrição, no todo ou em parte, do texto que se segue, desde que citada a sua origem:

 

 

Joel CLETO e Suzana FARO - O Dólmen de Chã de Parada, Baião. A Casa dos Mouros. O Comércio do Porto. Revista Domingo, Porto, 12 Dezembro 1999, p.21-22.

 

 

O dólmen de Chã de Parada, Baião

A CASA DOS MOUROS

 

 

(texto: Joel Cleto e Suzana Faro)

 

Um dos mais emblemáticos exemplares existentes no Norte de Portugal daquela que é uma das mais antigas arquitecturas em pedra do mundo, localiza-se num dos mais belos espaços naturais do distrito do Porto: a Serra da Aboboreira. É aí, na freguesia de Ovil, concelho de Baião, que encontramos a Anta de Chã de Parada, popularmente designada por “Casa dos Mouros”, não obstante possuir mais de cinco mil anos.

 

O dólmen de Chã de Parada, classificado como monumento nacional em 1910, não deixa indiferente quem o visita. Dificilmente se é insensível às suas consideráveis dimensões e à sua destacada presença na paisagem. Do mesmo modo que não nos conseguimos deixar de surpreender pelo facto de sabermos que foi erigido há milhares de anos pelo Homem pré-histórico para os seus mortos, estando na presença de um testemunho de uma das mais antigas arquitecturas em pedra no mundo. Bem mais antigo que o famoso monumento inglês de Stonehenge ou do que as pirâmides do Egipto...

Na sua “Viagem a Portugal”, as notas do Prémio Nobel José Saramago são disso mesmo reflexo: Não há limites para o silêncio. Debaixo destas pedras, o viajante retira-se do mundo. Vai ali à Pré-história e volta já, cinco mil anos lá para trás, que homens terão levantado à força de braço esta pesadíssima laje, desbastada e aperfeiçoada como uma calote, e que falas se falaram debaixo dela, que mortos aqui foram deitados. O viajante senta-se no chão arenoso, colhe entre dois dedos um tenro caule que nasceu junto de um esteio, e, curvando a cabeça, ouve enfim o seu próprio coração.

O espaço envolvente é também ele monumental. A Serra da Aboboreira, contraforte do Marão, compreendida entre os concelhos de Amarante, Baião e Marco de Canaveses, alberga, além do dólmen de Chã de Parada, não só uma das maiores concentrações existentes no país de monumentos megalíticos (antas, dólmenes, mamoas...), mas é também um importante santuário natural. Particularmente o extenso planalto superior, dominado por uma vegetação rasteira e a partir do qual se possui fabulosas panorâmicas sobre os vales envolventes, alberga uma considerável diversidade faunística. Esta relação entre aqueles monumentos funerários pré-históricos e o mundo natural que os rodeia foi descrita, igualmente, por outro nome incontornável da nossa literatura contemporânea, Agustina Bessa-Luís: Era ali que ele pertencia, àquela solidão percorrida pelos mortos que se transformaram em urze e em giesta. Essa giesta florestal e densa, vergada pelo vento. Que vento, senão o limite do vento? Não se parecia com nenhum outro, esse bafo, que continha uma voz, que se dispersava nas quebradas do Marão, serra mítica, onde os lobos erravam com o trote silencioso que imobiliza o coelho na clareira e revela o rumor da nascente debaixo da terra. As enormes pedras da Aboboreira, como catedrais dolomíticas, levantavam-se, com o peso solene em que o segredo da ogiva escorre caladamente. ( Fanny Owen, 1979).

Mas, voltando ao nosso monumento, estamos afinal em presença do quê, poderá perguntar o leitor?

Datadas do Neolítico, possuindo portanto mais de cinco mil anos, as antas ou dólmens constituem um dos vestígios mais antigos da fixação humana ao território, já que foram erigidos pelas primeiras comunidades sedentárias, pelos primeiros homens que, na nossa região, se fixaram motivados pela prática da agricultura e da pastorícia. Monumentos funerários de características colectivas, destinados para neles serem depositados os mortos, não deixaram, contudo, de ser importantes marcos para o mundo dos vivos, símbolos de uma memória e referência colectiva, marcas de apropriação do território, catalizadores de manifestações rituais...

Caracterizados por se ter empregue na sua construção pedras de grandes dimensões (daí a designação de “megalíticos”), estes monumentos são compostos geralmente por uma câmara funerária delimitada por uma série de lajes fincadas verticalmente no solo e coberta por uma tampa. É esta estrutura que geralmente se designa por anta ou dólmen. Contudo, este espaço sepulcral apresentava-se originalmente oculto, uma vez que era coberto por um montículo artificial de terra, revestido por pequenas pedras imbricadas – os “tumuli” dos arqueólogos, mas popularmente designados por mamoas dadas as suas óbvias comparações...

Mas, se a anta se encontrava oculta pela mamoa, como acedia o homem pré-histórico à câmara funerária? Fundamentalmente de duas formas: ou removendo a pesada tampa pétrea no topo da mamoa ou, no caso dos monumentos mais evolucionados, como o “nosso” dólmen de Chã de Parada, através de um corredor, construído igualmente com grandes lajes, que, da periferia da mamoa, penetrava pelo interior desta até à câmara dolménica.

O início da construção destes monumentos funerários, entre nós, datará de meados do IVº milénio a.C. E, graças a sistemáticas escavações arqueológicas que vêm sendo desenvolvidas nos últimos vinte anos em monumentos deste tipo, recorrendo a métodos como as datações  por Carbono 14, sabemos hoje que esta tradição terá perdurado mais de 1.500 anos, alcançando a Idade do Bronze. De resto o dólmen de Chã de Parada, também ele objecto há alguns anos de intervenção arqueológica, é paradigmático desta longa diacronia. Com efeito, construído muito provavelmente na segunda metade do IVº milénio a.C., terá tido uma utilização frequente até aos finais desse milénio, embora tenha continuado a ser reutilizado de forma mais esporádica até finais do IIIº milénio a.C. . Estamos, assim, perante monumentos cuja cronologia nada tem a ver com os mouros, não obstante o imaginário popular repetidamente os venha associando aqueles povos, que por aqui andaram “apenas” há pouco mais de mil anos, designando frequentemente as antas como “Casa dos Mouros”, como é exemplo Chã de Parada.

O espólio encontrado nas escavações destes monumentos – e a do dólmen de Chã de Parada não foi excepção – é geralmente pobre e escasso, compondo-se sobretudo de micrólitos, lâminas e pontas de seta talhados em pedra, machados em pedra polida, pequenos fragmentos de cerâmica e raros objectos de adorno. Estamos, afinal, perante monumentos erigidos por populações que ainda não dominavam a metalurgia, desconheciam a roda e a escrita... Erigidos por homens que, construindo ainda as suas casas em madeira e noutros materiais rapidamente perecíveis, tiveram a preocupação de encontrar moradias que salvaguardassem a imortalidade dos entes queridos que partiam do mundo conhecido dos vivos. E, cinco milénios depois, aqui permanecem, permitindo-nos, afinal, conhecer melhor esta fase fundamental da evolução e da História do Homem. Mesmo quando é a morte que nos vislumbra um certo limiar do mundo dos vivos E, por isso, as palavras do arqueólogo, também ele poeta, que escavou em 1987 o dólmen de Chã de Parada, Vítor Oliveira Jorge:   

 a terra que pisais é sagrada.

nestas chãs (...) erguem-se do chão montículos

onde respira a memória

daqueles que primeiro, aqui,

beberam o leite da cabra e da ovelha,

moeram o pão com simples pedras,

e acreditaram viver para sempre

sob este chão, no interior destas rochas  (Poemas Aboboraicos, 1988)

 

 

Como chegar

Para aceder ao dólmen de Chã de Parada o ideal é tomar o estradão em terra batida que atravessa o planalto da Aboboreira. Para o alcançar deverá o visitante rumar pela estrada que, via Soalhães, liga Marco de Canaveses a Baião. Já quase no fim da descida, a muito poucos quilómetros de Baião, encontrará o leitor, à sua esquerda, o referido estradão. Não obstante o caminho se encontrar sinalizado, deverá prosseguir agora com maior precaução. É que, depois de alguns quilómetros praticamente planos e cruzados dois pequenos lugares, deverá tomar à sua direita o estradão que o conduzirá ao alto da serra e à capelinha da Senhora da Guia, referência paisagística e humana no vasto e desértico planalto aboboraico. Aqui chegado já terá observado, mesmo ao lado da estrada, vários outros monumentos megalíticos, bastante arruinados, das cerca de três dezenas que existem nesta serra. Depois da capela da Senhora da Guia inicia-se a descida. É agora que lhe surgirão os dois monumentos mais bem preservados existentes na serra: primeiro, e junto de um entroncamento com um outro estradão que se abre à esquerda, o pequeno dólmen de Meninas do Crasto 3, e, poucas centenas de metros depois, continuando a descer pelo estradão principal, também à esquerda, mas afastado meia centena de metros da estrada, o Dólmen de Chã de Parada.  

 

 

Como ver

Não estacionar o veículo sobre a mamoa, ou mesmo na sua periferia, é condição fundamental não só para a preservação do monumento, mas também para nos apercebermos das suas dimensões e características. E, apesar de durante séculos este dólmen ter servido de abrigo aos pastores, espera-se igualmente dos visitantes que não acendam fogueiras no interior da câmara funerária. No interior desta procure identificar os motivos gravados nas suas lajes.

Para completar a visita dê um salto ao Museu Municipal de Baião. Aí encontrará não só informação complementar sobre esta necrópole pré-histórica, como poderá observar o espólio recolhido nas escavações arqueológicas realizadas durante os últimos anos. 

 

 

O que comer

Em Baião, procure a Pensão Borges, logo à entrada da vila. Aí encontrará um saboroso cabrito assado, acompanhado de um excelente arroz de forno, servido num tradicional alguidar de barro. E para beber não esqueça o vinho verde de Tormes, o mais afamado da região e que levará o leitor a um (re)encontro com Eça de Queirós.

 

Para saber mais

Vítor Oliveira JORGE – Sondagens Arqueológicas na Mamoa 1 de Chã de Parada (Baião, 1987). “Arqueologia”, 17. Porto: Grupo de Estudos Arqueológicos do Porto, 1988, p.73-118.

Vítor Oliveira JORGE – Arqueologia social dos sepulcros megalíticos atlânticos: conhecimentos e perspectivas actuais. “Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto – História”, II série, vol. VI. Porto: FLUP, 1989, p. 365-443.