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Permito a transcrição, no todo ou em parte, do texto que se segue, desde que citada a sua origem:

 

 

Joel CLETO e Suzana FARO - A lâmina de bronze do Mosteiro de Leça do Balio. Vem aí o Menino Jesus! O Comércio do Porto. Revista Domingo, Porto, 26 de Dezembro 1999, p.21-22.

 

 

 

 

 

A Lâmina de Bronze do Mosteiro de Leça do Balio

VEM AÍ O MENINO JESUS!

 

 

Joel Cleto e Suzana Faro

 

O nascimento de Jesus, ocorrido segundo a tradição há 2000 anos, havia sido previamente “anunciado” à sua mãe. As condições misteriosas e excepcionais desta “anunciação” e o facto de Maria ser virgem não deixaram de impressionar e inspirar homens e artistas ao longo dos tempos. Umas das representações mais interessantes deste episódio encontramos no Mosteiro de Leça do Balio, em Matosinhos. E a julgar pelo que nos é dado a observar, a Virgem “emprenhou pelos ouvidos”.

 

O Mistério da Encarnação, ou seja, a forma como Maria concebeu Jesus, foi sempre um tema polémico, mesmo no interior da Igreja. Deve-se a destacados e históricos pensadores eclesiásticos, como Santo Agostinho, Santo Ambrósio ou S. Bernardo, a defesa e a aceitação mais ou menos generalizada da concepção virginal de Jesus, comparando este à luz do sol que passa por Maria deixando íntegra a sua virgindade. Tal ideia dará, de resto, origem desde o século XIII, a cantigas e a expressões poéticas que se perpetuaram até aos nossos dias, como é o caso da quadra:

 

No ventre da Virgem Mãe

Encarnou divina graça,

Entrou e saiu por ela

Como o sol pela vidraça

 

Mas, já antes daqueles doutores da Igreja, e mesmo depois, outras fórmulas foram ensaiadas para explicar o Mistério da Encarnação. Entre elas uma teve significativa receptividade durante lato período. Apontada, por exemplo, no Evangelho apócrifo do Pseudo Mateus e no Evangelho, igualmente apócrifo, Arménio da Infância, esta tese possuiu bastante aceitação por recorrer, não tanto ao mundo das ideias, mas a uma forma mais “terra-a-terra”, a uma interpretação pela imagem: No mesmo instante em que a Virgem dizia estas palavras e se humilhava, o verbo de Deus nela penetrou pelo seu ouvido (Evangelho Arménio da Infância, capítulo V, versículo 9). Nascia também, deste modo, uma expressão corrente cujo significado está hoje, obviamente, adulterado: “emprenhar pelos ouvidos”.

Exemplo da longa sobrevivência desta versão do Mistério da Encarnação encontramos na lápide sepulcral em bronze de D. Frei Vasco Pimentel, datada da primeira metade do século XIV, suspensa numa parede da absidíola do Evangelho na igreja de Santa Maria de Leça, conhecida popularmente por Capela do Ferro do Mosteiro de Leça do Balio.

Autêntica jóia e obra-prima da arte medieval, esta lâmina em bronze não possui em toda a Península Ibérica, à excepção de uma outra existente na catedral de Ávila, nenhuma que se lhe assemelhe na sua importância artística. Medindo um pouco mais de um metro de largura e 50 centímetros de altura, e com origem provável no norte de França ou Flandres, encontra-se integral e artisticamente cinzelada apresentando uma extensa inscrição em latim, em letras góticas, figuras de santos, anjos e apóstolos, a Santíssima Trindade, escudos de armas e a famosa cena da Anunciação que nos motiva este texto.

Situada no canto superior direito da lâmina, esta representação possui ao centro um vaso florido com lírios que separa Maria, sentada junto a um pequeno templo, de um anjo que a saúda. A um nível superior encontra-se Deus que, através de um “raio de luz” que lhe sai da boca (de um balão, diríamos hoje, utilizando a linguagem da banda-desenhada), lhe anuncia o Menino Jesus que é igualmente representado no referido balão que penetra pela orelha de Maria. Ou seja, na linguagem popular, a Virgem “emprenhando pelos ouvidos”.

Feita a apologia da obra, falta saber quais as circunstâncias que motivaram o aparecimento desta lápide no Mosteiro de Leça do Balio. Podemos dizer que tudo começou com a morte, em 1336, de D. Frei Vasco Pimentel, o balio que se encontrava à frente dos destinos do Mosteiro de Leça e que foi, de resto, o responsável pelas profundas obras de ampliação e remodelação do Mosteiro nos inícios do século XIV conferindo-lhe o aspecto que ainda hoje nos é dado a observar, considerado como um dos exemplos mais paradigmáticos existentes em Portugal do gótico inicial.

Não obstante todo o seu poder, popularidade e o facto de ter sido o reedificador do templo, a verdade é que D. Frei Pimentel optou, humildemente, por uma sepultura rasa no chão da absidíola do Evangelho. Demasiado humilde, terão considerado os seus amigos, e por tal motivo o seu sucessor decidiu recordar para a posteridade as virtudes do antigo balio encomendando uma lápide em bronze que seria colocada numa parede junto à sepultura. E, para conhecermos melhor quem foi D. Frei Vasco Pimentel, nada melhor do que ler a inscrição da placa. Deixamos ao visitante uma tradução de Pedro Vitorino:

“Este, que descansa nesta sepultura, foi um digno Prior, da Ordem Baptista: agora conhece quais foram as suas acções: Depois da morte de Estévão Vasques, com dificuldade aparecerá quem seja melhor Prior do que ele foi. Pela sua família chamou-se Pimentel, mas que pela sua vida e costumes chamou-se Abençoado. Ninguém era mais galhofeiro do que ele, nem tão forte, formoso e constante: tendo em vista o que era melhor. Viajou por muitas terras e atravessou muitos mares. Sem contar o Priorado, teve cinco Comendas, que a sua Ordem lhe deu, e o Papa nisso consentiu, são as Comendas, a Sertã, que foi Comenda de Graça, Leça, Crato, Rio Meão e a flórida Faya, que foi a primeira. Oh! Tu que és instruído, faz desta conta, ele foi Prior trinta anos, tendo sido antes bom Freire, contando três vezes quatro. Fundou esta Igreja, e dotou-a generosamente e pôs o seu sepulcro aqui, onde melhor lhe agradou. Determinou que dois capelães cantassem todos os dias missas em honra de Maria Santíssima: para isto se cumprir, aplicou-lhes as rendas da freguesia de Tougues, com as mais pertenças, tendo para isso precedido licença régia, aprovação do Papa, e consentimento do Grão Mestre. Seja amaldiçoado de Deus quem se opuser a esta determinação. Enquanto viveu, desempenhou todas as obras de misericórdia; queira também o filho de Deus compadecer-se dele. Assim como a rosa é a melhor das flores, assim este Prior foi o melhor dos Priores; sirvam-lhe estes versos de epitáfio. Ele morreu quase no meio do mês de Maio da era de mil trezentos e setenta e quatro” (ano de Cristo: 1336).

 

Como chegar

O melhor acesso ao Mosteiro de Leça do Balio encontra-se, devidamente sinalizado, a poucos quilómetros do centro da cidade da Maia ou, no sentido inverso, da entrada na cidade do Porto. Faz-se pela Via Norte, devendo o visitante sair desta artéria no nó junto à fábrica de cervejas UNICER. O Mosteiro fica a poucas dezenas de metros e não falta lugar para aparcamento.

 

Como ver

A lâmina sepulcral de bronze encontra-se na parede da absidíola do Evangelho da igreja do Mosteiro, ou seja, situa-se, para quem entra pela porta principal, na capela do lado esquerdo da capela-mor, popularmente designada por Capela do Ferro.

No chão desta absidíola encontrará o leitor a sepultura rasa do Frei Estevão Vasco Pimentel, devidamente identificada por epígrafe gravada na laje granítica sepulcral.

 

 

Para saber mais

Manuel MONTEIRO – “Igrejas Medievas do Porto”. Porto: Marques Abreu, 1954, p. 85-87 e est. 59-61.

Pedro VITORINO - A Lâmina de Bronze. “Revista de Arqueologia”. Lisboa, I, 1938.