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JOEL CLETO / MATOSINHOS /
RAMALDE / ARQUEOLOGIA / PATRIMÓNIO
/ MATOSINHOS & PATRIMÓNIO
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A CONSULTAR A PÁGINA PESSOAL DE JOEL CLETO
Permito
a transcrição, no todo ou em parte, do texto que se segue, desde que citada a
sua origem:
Joel
CLETO e Suzana FARO -
S. Pedro das Águias, Tabuaço: Os Amores de D. Tedo e Ardinga. O Comércio do Porto. Revista Domingo,
Porto, 26 Setembro 1999, p.21-22.
S. Pedro das Águias, Tabuaço
Os Amores de D. Tedo e Ardinga
(texto: Suzana
Faro e Joel Cleto)
Em Tabuaço,
no Mosteiro de S. Pedro das Águias, a princesa moura Ardinga procurou refúgio para
poder desposar D. Tedo, cavaleiro cristão por quem se apaixonara. Por tal
"traição" seu pai, o emir de Lamego, aí a matou com as suas próprias
mãos.
Esta lenda
e outros episódios históricos se podem recordar junto das seculares pedras de
uma das igrejas românicas que mais cedo acolheu a Ordem de Cister e que
apresenta uma das mais fantásticas e aparentemente enigmáticas implantações no
país.
Quase tão velha como a própria igreja, a lenda que
envolve S. Pedro das Águias transporta-nos aos remotos e obscuros tempos da
Reconquista. Dois cavaleiros de Entre-Douro-e-Minho, entre atribuladas
incursões na luta contra os mouros, vêm instalar-se nas margens do Távora onde construíram
a sua habitação. À presença de D. Tedo e D. Rosendo na região - assim se chamavam
os dois nobres - não foram indiferentes os olhos da população local. A tal
ponto os seus feitos eram famosos, mesmo entre os sarracenos, que as próprias
filhas do emir de Lamego, encantadas com a coragem e valentia dos cavaleiros,
fugiram de entre os seus partindo ao seu encontro, trajando como disfarce fatos
masculinos.
Conta a lenda que Ardinga, uma das princesas, se terá
apaixonado por D. Tedo e, procurando abrigo entre os religiosos do Mosteiro de
S. Pedro das Águias, aí se converte ao cristianismo para assim o poder
desposar. Aí é surpreendida por seu pai que, ao ver que esta o traíra e
renegara a sua fé, ali mesmo a matou "com as suas próprias mãos".
Abalado pelo amor que a jovem princesa moura lhe
dedicara e pelo triste fim que por tal motivo merecera, D. Tedo terá feito voto
de celibato, entregando-se à luta contra os infiéis. O cavaleiro cristão
morrerá em combate em terras de Tabuaço, nas margens do rio que, por tal
motivo, viria a ter o seu nome.
Uma outra versão desta lenda conta que os dois nobres
seriam de origem leonesa e que Ardinga, a princesa moura, apaixonada e
correspondida num amor impossível, teria fugido não com sua irmã, mas com uma
escrava para encontrar D. Tedão (e não D. Tedo), abrigando-se no Mosteiro de S.
Pedro de Águias.
São pois estas as lendas que ecoam ainda hoje nas
silenciosas e escarpadas margens do Távora, explicando a origem e dando
popularmente notoriedade à igreja de S. Pedro de Águias. Mas, se estas são as
lendas, que realidades se escondem por trás delas? Sabemos infelizmente muito
pouco sobre a história do Mosteiro. Os incêndios que no século XIX lavraram um
pouco por todos os cartórios monásticos fizeram também desaparecer a
documentação que existiria sobre o mosteiro. Breves e pontuais referências
dispersas e estudos de história de arte e de arqueologia têm permitido,
contudo, algumas aproximações ao Passado e à Memória de S. Pedro das Águias.
Comecemos pela sua estranha e única localização.
Edificada numa pequena plataforma, a meia-encosta das ravinas voltadas para o
rio Távora, a igreja apresenta a particularidade de se implantar de encontro
(quase encostando) à escarpa. Edificação aparentemente tanto mais estranha
quanto o facto do lado do templo voltado para a penedia ser exactamente o da
entrada. Escassas dezenas de centímetros separam, com efeito, o monumento dos
afloramentos rochosos permitindo o acesso, difícil, do visitante ao pórtico de
entrada.
É muito provável que, já antes da construção da
pequena e bela igreja que actualmente nos é permitido contemplar, o local
abrigasse uma reduzida comunidade de eremitas que se abrigariam em covas
abertas nos rochedos. De resto ainda hoje um abrigo desse tipo é visível no
local. A edificação do templo ter-se-á concretizado no século XII, a avaliar
pelo seu estilo arquitectónico e pela ornamentação que apontam claramente para
uma tipologia de igreja românica beneditina. Que os monges que aqui habitavam
fossem beneditinos não é de estranhar. Estranho seria que não o fossem, já que
a localização se adapta perfeitamente às estratégias que esta ordem religiosa
albergava. Isto porque, como já dizia a frase latina Benedictus montes,
Bernardus valles amabat, Franciscus vicos, magnas Ignatius urbes - São
Bernardo (ordem de Cister) amava os vales, São Bento os montes, São Francisco
as aldeias e Santo Inácio as grandes cidades.
É provavelmente nos finais do século XII que o
mosteiro de S. Pedro das Águias é palco de uma importante reforma, abandonando
a Ordem de S. Bento e filiando-se na de Cister. Os reformadores cistercienses,
que haviam entrado recentemente no país, estavam então em expansão e este
mosteiro faz parte dos primeiros que em Portugal abraçaram a Regra de S.
Bernardo, juntamente com o de S. João de Tarouca (1140), Santa Maria de
Salzedas (c. 1156), Santa Maria de Alcobaça (1153), Santa Maria do Bouro
(1153-63) e Santa Maria de Aguiar (c.1170). De resto, os ideais espirituais de
Cister, apelando a uma vida de pobreza e de isolamento dos monges como um dos
meios fundamentais para alcançar a perfeição e permitir o encontro com Deus,
facilmente terá levado esta Ordem a identificar-se com os eremitas que viveriam
Afastados do barulho do mundo, mas apesar de tudo,
com a abertura que terá permitido os amores e (des)encontros de D. Tedo e
Ardinga ou de outros que as narrativas populares acabaram por ocultar com o
peso da "lenda oficial", o Mosteiro de S. Pedro das Águias não terá
permanecido naquele local por muito mais tempo. Embora se desconheça a data, a
comunidade transferiu-se poucos séculos depois (talvez ainda durante a Idade
Média) para um outro local, a cerca de
A velha, pequena e fantástica igreja de S. Pedro das
Águias resistiu no entanto até aos nossos dias. Evocando aqueles tempos do
início da nacionalidade, tempos de novos pensamentos e práticas religiosas,
tempos de guerra, tempos de intolerância religiosa e, como todos os tempos,
tempo de amor.
Como Chegar
A igreja românica de S. Pedro das Águias encontra-se
localizada na margem esquerda do rio Távora, no concelho de Tabuaço. Para aí
chegar deverá o leitor seguir a estrada nacional 323 de Moimenta da Beira para
Tabuaço, onde, poucos quilómetros antes desta última povoação, há um desvio
(bem sinalizado) que acede à igreja, localizada
Como ver
Deixe o visitante a viatura no pequeno
largo/estacionamento no final do estradão de acesso. A face sul do monumento
está mesmo ali, à frente dos seus olhos, a poucas dezenas de metros de
distância e não há necessidade de afogar a pequena igreja com o seu automóvel.
A ermida de S. Pedro das Águias, conhecida também por
igreja românica de S. Pedro das Águias ou por S. Pedro das Águias o velho (para
distinguir este monumento do convento novo situado a 2 kms de distância e
construído posteriormente) merece uma visita pousada e atenta. Não só pela
importância e beleza dos seus motivos arquitectónicos e escultóricos, não só
pela sua implantação "sui generis", mas também para permitir uma
correcta compreensão do espaço. Com efeito, quando o visitante contemplar o templo
religioso não se deve esquecer que está a observar apenas uma pequena parcela
de uma realidade que foi muito mais vasta. Como facilmente compreenderá, os
monges não dormiam, cozinhavam ou comiam no interior da igreja. Outras
construções completariam o mosteiro. Construídas, contudo, em materiais
perecíveis, não chegaram até aos nossos dias. O potencial arqueológico do sítio
é, no entanto, significativo, como um simples deambular pelas cercanias
demonstra através dos fragmentos cerâmicos e algumas estruturas que emergem à
superfície.
Alguns elementos que só fazem sentido se
compreendermos que aqui existiu um mosteiro chegaram, no entanto, até aos
nossos dias. É o caso da porta que, lateralmente, une a fachada da igreja à
escarpa rochosa e que se trata, seguramente, do acesso ao interior do mosteiro.
Ainda no exterior, na parede sul da capela-mor, observará também o visitante os
orifícios através dos quais os monges receberiam ajudas do exterior durante
períodos de isolamento. Passando pela estreita entrada encontra-se agora numa
plataforma onde, na falésia, pode observar uma cova semelhante a outras que
aqui terão existido e abrigado a primeira comunidade de eremitas que aqui se
instalou.
Na igreja propriamente dita não deixe de reparar nos
motivos escultóricos com figuras humanas e animais existentes nas arquivoltas e
capiteis dos pórticos frontal e laterais. E para despedida não deixe de
contemplar o "Agnus Dei" esculpido no tímpano da entrada lateral
norte onde uma inscrição evoca que "o Senhor dos exércitos proteja a
entrada e a saída deste templo".
Para saber
mais
Sant'Anna DIONÍSIO, Eremitério de S. Pedro das
Águias. "Guia de Portugal", vol. V (Trás-os-Montes e Alto Douro), 2ª
edição. Fundação Calouste Gulbenkian, 1988, p. 775-779.
Manuel Luís REAL, A construção cisterciense em
Portugal durante a Idade Média. "Arte de Cister em Portugal e
Galiza". Fundação Calouste Gulbenkian e Fondación Pedro Barrié de
Ricardo TEIXEIRA, Arqueologia dos espaços
cistercienses no Vale do Douro. "Cister no Vale do Douro". Porto:
Edição Afrontamento, 1999, p.199-205.
José Ignacio de