JOEL CLETO   /  INTRODUÇÃO  /  MATOSINHOS  /  RAMALDE  /  ARQUEOLOGIA  /  PATRIMÓNIO

 

Permito a transcrição, no todo ou em parte, do texto que se segue, desde que citada a sua origem:

 

(Joel CLETO e Suzana FARO – Nos 30 anos do Parque Nacional da Peneda-Gerês. A Memória de Vilarinho das Furnas. O Comércio do Porto. Revista Domingo, Porto, 29 de Abril 2001, p.20-22.)

 

 

Nos 30 anos do Parque Nacional da Peneda-Gerês

A MEMÓRIA DE VILARINHO DAS FURNAS

 

Joel Cleto e Suzana Faro (texto e fotos)

 

 

Completam-se, no próximo dia 8 de Maio, 30 anos sobre a criação do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Corolário de um processo que se arrastava há décadas, foi também resultado de um crescente reconhecimento, à escala nacional e internacional, da importância natural deste vasto território que se estende pelos concelhos de Montalegre, Terras de Bouro, Arcos de Valdevez, Melgaço e Ponte da Barca. Um território marcado por um conjunto de elevações assinalável e no qual se assistiu ao longo dos últimos milhares de anos a uma harmoniosa interacção entre o Homem e a Natureza, dando lugar ao aparecimento de formas culturais muito próprias e extremamente valiosas.

No entanto, nesse mesmo ano de 1971 em que era criado o Parque Nacional desaparecia, engolida pelas águas da albufeira de uma barragem, aquela que era uma das mais interessantes comunidades humanas da região e que poderia ter sido uma das mais emblemáticas povoações do único Parque Nacional português: a aldeia comunitária de Vilarinho das Furnas.

 

 

Foi a 8 de Maio de 1971 que o Decreto-Lei nº187 instituiu o Parque Nacional da Peneda-Gerês. A sua criação fora em larga medida impulsionada pelo facto de, no ano anterior, se ter celebrado o Ano Europeu da Conservação da Natureza que, entre outras realizações, permitira a elaboração de uma lei que previa a rápida criação do Parque Nacional. Não se pense, no entanto, que o processo que conduziu ao aparecimento daquele que foi o primeiro, e até agora único, parque nacional foi sempre assim tão célere. Basta, a esse propósito, recordar que no já distante ano de 1939 os Serviços Florestais preconizavam, aquando do projecto de arborização da Serra do Gerês, que esta região fosse classificada como Parque Nacional face aos valores aí existentes.

Um dos principais obstáculos que durante anos se colocou ao avanço do processo de classificação deste território como Parque Nacional, receando-se nomeadamente o seu não reconhecimento pelas entidades e organismos internacionais responsáveis pela “creditação” de tal estatuto, foi curiosamente uma das mais significativas características e especificidades da Peneda-Gerês: a presença de um número considerável de comunidades humanas interagindo com o meio, daí resultando uma paisagem muitas vezes fortemente humanizada. Havia, então, uma visão muito restritiva do conceito de Parque Nacional, até porque a ideia que se possuía de outros parques noutros locais do mundo era a de “santuários” da natureza praticamente não “tocados” pelo Homem.

No entanto, a verdade é que a forma como ao longo de milhares de anos estas comunidades se desenvolveram e articularam de forma harmónica com a Natureza, dando lugar ao aparecimento de formas culturais muito próprias e extremamente valiosas, mas também raras e em rápido processo de desaparecimento, acabou afinal por ser um forte argumento para a classificação da Peneda-Gerês como Parque Nacional e para o seu reconhecimento internacional.

Trinta anos depois, e não obstante a globalização económica e a crescente uniformização cultural, associada ao fim do isolamento das populações e a uma verdadeira revolução que permitiu que as vias de acesso, a electricidade e o telefone chegassem a todo o lado, 114 aldeamentos “periféricos”, com cerca de 15 mil habitantes, continuam a emprestar ao Parque Nacional  uma característica única e a revelar uma forma privilegiada da relação do Homem com a Natureza.

Paradoxalmente, no mesmo ano em que o Parque era criado desaparecia aquela que era uma das suas mais interessantes e genuínas comunidades: a de Vilarinho das Furnas, na freguesia de S. João do Campo, concelho de Terras de Bouro. O Estado Novo (já muito velho, como demonstraria uma certa manhã de Abril três anos depois) dava com uma mão mas, a pretexto da sua emblemática política energética, retirava com a outra. No ano seguinte, a 21 de Maio de 1972, o Presidente da República Almirante Américo Tomás inauguraria mais uma das múltiplas barragens que compunham o aproveitamento hidroeléctrico do sistema Cávado /Rabagão: a de Vilarinho das Furnas, represando as águas de um dos principais afluentes do Cávado, o rio Homem, e afogando sob as águas da albufeira a aldeia que dera o nome à barragem.

Paulatinamente as águas haviam subido ao longo de 1970 e 1971 obrigando à definitiva partida dos seus habitantes – perto de duas centenas e meia, distribuídos por 67 famílias e 80 casas – para diferentes paragens. Acompanharam-nos uma indemnização total de 30 mil contos, manifestamente inferior às perdas materiais, já que as culturais e sentimentais nenhum dinheiro poderia pagar. Os tempos e o regime não convidavam, contudo, a grande resistência...

Velhos, homens, crianças. Todos foram partindo com os seus haveres. E o silêncio tomou conta da aldeia, quebrado apenas pelo sussurro das águas subindo pelas paredes. A aldeia morrera e, hoje, quando esporadicamente reaparece, é como se um fantasma emergisse das águas. Exigindo que se lhe faça justiça ou que se relembre que abrigou uma comunidade ímpar, possuidora de uma cultura muito própria que motivou, de resto, alguns dos mais famosos e pioneiros estudos da moderna e científica etnografia portuguesa, como foi o caso do trabalho de Jorge Dias, realizado com o apoio da sua mulher Margot e dos desenhos de Fernando Galhano, editado em 1948.

Localizada no sopé da Serra Amarela, que a defendia das nortadas e ventos frios, Vilarinho das Furnas comprimia-se entre o Rio Homem e a Ribeira do Eido que irrigavam os campos que cercavam a povoação. Isolada do resto do mundo, esta aldeia desenvolveu um interessantíssimo sistema de vida comunitária pastoril, que em grande medida terá sido durante séculos a chave do sucesso para ultrapassar as frágeis condições de subsistência que o local oferecia. São muitos os exemplos desse espírito comunitário. Deixamos o leitor apenas com alguns. Desde logo a própria fisionomia do povoado já que, havendo que poupar e rentabilizar ao máximo os terrenos aráveis em torno do povoado, até porque as fragas e os terrenos estéreis dominavam o resto da paisagem, Vilarinho apresentava um povoamento muito concentrado, não muito habitual nesta região, com casas contíguas definindo evidentes ruas e vielas. O aspecto do povoado fazia, de resto, com que os seus habitantes cantassem:

O lugar de Vilarinho

Ó longe parece vila.

Tem um cravo na entrada,

E uma rosa na saída

O pastoreio colectivo dos rebanhos e cabeças de gado (as “vezeiras”) era uma outras das tarefas desenvolvidas de forma comunitária. Do mesmo modo que toda a administração do povoado se baseava numa ancestral organização claramente identificada com o comunitarismo destas populações e as suas leis consuetudinárias: “Os Seis”, eleitos anualmente por uma assembleia constituída por todos os chefes de família (a “Junta”), a quem competia decidir sobre quais as tarefas colectivas que todos deveriam realizar (arranjo de caminhos, pastoreio rotativo dos rebanhos...) bem assim como julgar e castigar todos os crimes, com excepção dos de morte. E por este motivo ao líder dos “Seis” se chamava igualmente “Juiz”.

Não obstante as evidentes adversidades do meio a verdade é que, graças a estas suas estratégias culturais, Vilarinho parece ter-se assumido durante séculos como um povoado de razoável estabilidade e sucesso. A esse respeito parece ser eloquente o que sobre ela deixou escrito o alemão Link que por aqui passou por volta de 1798:

“Vilarinho tem muitos habitantes ricos. Vimos grande quantidade de mel (...). Os habitantes tinham muitos bodes, cujas peles se vendem para o Alto Douro, onde fazem delas odres para o vinho.

“Tivemos de nos hospedar em casa de um habitante (...) por não haver estalagem. A casa, construída como todas as de Portugal, era de um só andar, mas sem janelas, com o soalho esburacado, e não se distinguia das outras do lugar. Mas dentro não faltava nada do que se pode esperar na habitação dum camponês. Os presuntos, o leite, a manteiga eram bons e em abundância. Tivemos ocasião de ver que a numerosa família do nosso hospedeiro vivia bem e comodamente e que muitos camponeses alemães teriam motivo de invejar tal abastança. Prepararam-nos camas muito boas, com lençóis brancos e limpos. Não esperávamos encontrar tais coisas numa casa daquelas.”

Hoje Vilarinho das Furnas e o exemplo de entreajuda e solidariedade das suas gentes já não existe. Mas a sua Memória persiste. E é do seu cancioneiro que nos chega ainda hoje o consolo:

Não chores, tu não chores

Teu chorar nos faz penar,

Os devotos deste povo,

Hoje vos vêm consolar.

 

Como ver

Oculta sob as águas do rio Homem, represadas na albufeira da barragem que tomou o seu nome, Vilarinho das Furnas só muito raramente se deixa ver e visitar. Situações esporádicas de longas secas, que contribuem para um abaixamento natural das áreas inundadas, permitem vislumbrar partes do povoado. Ainda mais pontuais são as descidas significativas dos níveis das águas provocadas de forma intencional por trabalhos de manutenção e limpeza da barragem. Nessas (raras) ocasiões o povoado tem emergido totalmente e revelado uma resistência surpreendente. Embora os telhados e todas as estruturas em madeira tenham já desaparecido, a maioria das casas mantém uma fisionomia que torna perfeitamente legível o seu aspecto original. É possível, nessas alturas, vaguear novamente pelas centenárias ruas e vielas da aldeia e cruzar a velha ponte medieval que servia a povoação. Também os muros de vedação e divisão de terrenos, muitos dos quais edificados com grandes seixos rolados de rio, se encontram bem preservados. É nessas alturas que, esmagado pelo silêncio e pela imponência da paisagem, o visitante poderá eventualmente observar algumas velhas conversando entre si, sentadas nas gastas escadas de pedra que conduziam aos pisos superiores das habitações. No antigo largo do “Chão do Forno” o barulho de vozes levará o visitante a reparar que o “Juiz” e “Os Seis” convocam a “Junta” para um debate sobre a necessidade de reparação de caminhos. Entretanto, por algumas das estreitas artérias do povoado, as “vezeiras” regressam a casa entre o ruído que lhes é tão característico. Risos de algumas jovens são também audíveis, ao mesmo tempo que um grupo de miúdos corre e quase choca com o visitante que, estupefacto, compreenderá então o significado de uma das quadras do cancioneiro de Vilarinho das Furnas, recolhido por Margot Dias: 

O lugar de Vilarinho

Todo cheio de ameixeiras,

No meio dele passeiam

Quatrocentas feiticeiras

Há excepção destas raras oportunidades Vilarinho das Furnas mantém-se oculta. Um ou outro muro de divisão de propriedade ou dos que ladeavam os velhos caminhos de acesso à aldeia é a única coisa que poderá observar o visitante que se dirija até ás vertentes da Serra Amarela que desciam até à aldeia e, hoje, mergulham na vasta albufeira com cerca de 346 hectares.

Mas a Memória de Vilarinho está bem viva. Não só nas recordações de alguns dos seus antigos habitantes ou vizinhos, como os de S. João do Campo do Gerês, mas muito especialmente no Museu Etnográfico de Vilarinho das Furnas, da Câmara Municipal de Terras do Bouro, localizado muito próximo da entrada de S. João do Campo. Este atractivo museu, cujo edifício foi construído com pedras retiradas de casas de Vilarinho de Furnas, apresenta uma significativa colecção de utensílios explorando igualmente outras marcas da cultura tão característica e própria da aldeia desaparecida.

Aberto de terça a sexta-feira das 8.30 às 12 horas e das 14 às 17 horas, e aos fins de semana das 10 às 12 e das 14 às 17 horas, a entrada custa 110 escudos, sendo gratuita (entre outros, incluindo todos os habitantes do concelho) para os menores de 15 anos. Para visitas de grupo ou para esclarecimentos adicionais aconselha-se o contacto através do telefone 253 351 888.

 

Como chegar

A melhor forma para atingir a povoação de S. João do Campo do Gerês e, a partir desta, a barragem de Vilarinho das Furnas, é tomar na vila de Terras de Bouro a EN 307 em direcção à povoação de Covide, uma das entradas do Parque Nacional. Aqui chegado o leitor encontrará sinalização que o levará, através de uma estrada secundária, até aquela aldeia. Pelo caminho, igualmente bem sinalizado, fica o Museu Etnográfico de Vilarinho das Furnas.

Um outro trajecto, mais longo, mas simultaneamente muitíssimo belo e sem dúvida um dos melhores percursos que se pode fazer em automóvel ao longo do Parque Nacional, consiste em, chegado a Covide, prosseguir pela estrada nacional (a partir daqui com a designação de EN304) com passagem pelo emblemático S. Bento da Porta Aberta e por Rio Caldo onde, contornando a albufeira da barragem da Caniçada, se deverá tomar a estrada 308-1 em direcção às Caldas do Gerês e, depois destas, à Portela do Homem (atenção: esta é uma das áreas mais belas e simultaneamente mais frágeis do Parque, sendo objecto de controlo o tempo que é disponibilizado para o visitante fazer o percurso em automóvel). Poucos quilómetros antes de se atingir a Portela do Homem surge, à esquerda, um estradão florestal que, ao longo da margem esquerda da albufeira de Vilarinho das Furnas, conduzirá o leitor até S. João do Campo do Gerês. A barragem não se situa a grande distância da aldeia e, passando sobre o seu tabuleiro, poderá o visitante atravessar para a margem direita ao longo da qual, no sopé da Serra Amarela, poderá procurar vislumbrar os vestígios da aldeia desaparecida sob o vasto manto das límpidas e frias águas  que, paradoxalmente, durante séculos foram uma das suas principais fontes de riqueza e factor de sobrevivência.

 

Para saber mais

Jorge DIAS – “Vilarinho das Furnas. Uma aldeia comunitária”. Maia: Imprensa Nacional da Casa da Moeda, 1981 (reprodução fac-similada da 1ª edição datada de 1948). 314 p.

M. LINK – “Voyage en Portugal depuis 1797 jusqu’en 1799” (traduit de l’Allemand). Paris, 1803. tomo II, p.29-31.

Luís POLONAH – “Comunidades Camponesas no Parque Nacional da Peneda-Gerês”. Lisboa: Serviço Nacional de Parques, 1987.

 “Vilarinho das Furnas. Aproveitamento hidroeléctrico”. Gaia: Companhia Portuguesa de Electricidade CPE – SARL, 1972. 40 p.

“Vilarinho das Furnas”. Portugal, 1971, 16 mm, p.b., 60 min. Filme com realização, fotografia, montagem e produção de António Campos, documentando os últimos doze meses de vida da povoação.

“Museu Etnográfico de Vilarinho das Furnas” in http://www.geira.pt/mvilarinhofurnas